Musica: Meu experimento aprendendo teclado com IA

09 August 2026, Carlos Pena

Um experimento: vou aprender teclado com IA. É o meu primeiro instrumento.

O que eu tenho: um teclado Yamaha mais velho que eu, e vontade.


Premissas

São as restrições dentro das quais o método precisa funcionar. Não são negociáveis - elas descrevem onde eu estou de verdade, não onde um iniciante deveria estar.


Nosso método

Sessões de ~10 minutos, sempre com um objetivo pequeno e concreto.

A ordem em que as camadas entram:

música → melodia → ritmo → acordes → acompanhamento → música completa


Dia 1 - 09/08/2026

A música escolhida: Toma Conta de Mim - Limão com Mel

O primeiro obstáculo não foi o teclado: Foi achar material.

Eu imaginava que em algum lugar existisse escrito “a sílaba To é a nota X” - e existe, chama-se partitura vocal. O problema é que, pra essa música, ela só existe em PDF/imagem paga. Nenhuma versão em texto livre.

A conclusão que fica: pra música brasileira recente, transcrição de melodia em texto livre é escassa. O acervo grátis cobre muito mais música antiga e internacional. Isso é um dado real de quem tenta aprender por conta.

Sessão 1

Cansei de procurar o material perfeito e comecei. Fui pelos acordes, não pela melodia - inverti a ordem do próprio método, e foi a decisão certa: melhor treinar algo hoje do que esperar o arranjo ideal.

Repetindo devagar e decorando:

D  →  F#  →  Bm  →  B7

Notas de cada um:

Cifra Notas
D D F# A
F# F# A# C#
Bm B D F#
B7 B D# F# A

Uma coisa que percebi na prática: o F# está nos quatro acordes. É uma âncora - o dedo não precisa procurar essa nota, ela fica. E BmB7 muda um dedo só, o D sobe pro D#. Não é coincidência que a sequência caia bem na mão.


O refrão, trecho por acorde

Trecho Cifra Notas  
toma conta de mim D D F# A sessão 1
me envolve em F# F# A# C# sessão 1
teus Bm B D F# sessão 1
braços B7 B D# F# A sessão 1
só você que não vê Em E G B novo
que a falta de você G G B D novo
tá doendo em mim A A C# E novo

O F# segura a maior parte da primeira frase, e os dois acordes seguintes vêm rápido, quase juntos, no finalzinho. Saber onde trocar é o que separa “sei os acordes” de “toco o trecho”.

O B7 de braços cai direto no Em - é exatamente pra onde ele estava puxando. É esse encaixe que faz a escolha do B7 valer.

Dos novos, Em e G são tecla branca pura, e a troca entre os dois move um dedo só: o E desce pro D. Só o A tem preta.

Tirei essa harmonia do próprio arquivo MIDI, e ele entregou uma informação que a cifra não dava: cada acorde dura exatamente 2 tempos. Todos, sem exceção. A 100 BPM, isso é uma troca a cada 1,2 segundo.

Com os sete, fecha a primeira metade do refrão:

D    F#   Bm   B7  |  Em   G    A

Dia 2 - 10/08/2026

Objetivo de hoje: colocar os acordes dentro de um pulso.

4 batidas por acorde. No teclado coloquei o ritmo 8 beat, velocidade 02, e fui tocando:

D    F#   Bm   B7  |  Em   G    A

Usar o ritmo do próprio teclado em vez de metrônomo foi proposital - com levada eu ouço música, com clique eu ouço exercício.

Vale registrar que 4 batidas por acorde é metade da velocidade harmônica real: na gravação cada acorde dura 2 tempos. Ou seja, esse é o mesmo caminho, em marcha reduzida.

O que falhou

Devagar, e com falhas em dois pontos específicos: o B7 e a volta do A para o D.

Os dois têm causa, não são falta de repetição:

O que funcionou

Parei de tocar a sequência inteira e fiquei só na emenda:

Bm  →  B7  →  Bm  →  B7  ...

Me adaptei bem, e nesse exercício isolado consegui subir a velocidade para 04. Depois voltei pra 02 e repeti a sequência completa. Acho que adiantou.

Faz sentido que adiante: sozinha, a emenda tem menos coisa na cabeça, então aguenta mais velocidade. Quando ela volta pro meio da sequência, no tempo lento, sobra folga.

E teve um efeito que eu não esperava: tratando o Bm → B7, a volta do A → D melhorou junto - e essa eu não cheguei a treinar. Sugere que o que estava quebrado não era a passagem específica, era a habilidade geral de trocar de acorde dentro do tempo. Consertou numa, valeu pra outra.

Fechando o dia: foram poucos avanços, mas foram avanços.


Apêndice - cifra e nota

Como se lê uma cifra:

E a regra que gera tudo isso - conta teclas, incluindo as pretas:

Maior     raiz  --4-->  --3-->
Menor     raiz  --3-->  --4-->
Sétima    maior, mais  --3-->

Cifra na internet mistura sustenido e bemol, então repeti as linhas: Db é a mesma coisa que C#, e está logo abaixo dele. Procura o símbolo que você viu e toca as teclas da linha.

Cifra Dó-Ré-Mi Maior Menor (m) Sétima (7)
C C E G C D# G C E G A#
C# Dó# C# F G# C# E G# C# F G# B
Db Réb C# F G# C# E G# C# F G# B
D D F# A D F A D F# A C
D# Ré# D# G A# D# F# A# D# G A# C#
Eb Mib D# G A# D# F# A# D# G A# C#
E Mi E G# B E G B E G# B D
F F A C F G# C F A C D#
F# Fá# F# A# C# F# A C# F# A# C# E
Gb Solb F# A# C# F# A C# F# A# C# E
G Sol G B D G A# D G B D F
G# Sol# G# C D# G# B D# G# C D# F#
Ab Láb G# C D# G# B D# G# C D# F#
A A C# E A C E A C# E G
A# Lá# A# D F A# C# F A# D F G#
Bb Sib A# D F A# C# F A# D F G#
B Si B D# F# B D F# B D# F# A

A coluna Dó-Ré-Mi está aqui só como ponte - meu método diz A-G e é assim que eu leio. Mas quem me explica alguma coisa costuma falar em Dó-Ré-Mi, e essa coluna existe pra eu traduzir sem perder tempo.

Onde ficam as cinco pretas: C#/Db e D#/Eb são a 1ª e a 2ª do grupo de 2. F#/Gb, G#/Ab e A#/Bb são a 1ª, a 2ª e a 3ª do grupo de 3.

Uma nota sobre a tabela: escrevi tudo com o nome que está na tecla do meu teclado. Na teoria, C# maior se escreve C# E# G# - mas não existe tecla marcada E#, e eu ia procurar por ela. Como o objetivo aqui é tocar e não escrever partitura, F resolve melhor.